A Origem do Comando Vermelho: Como a Ditadura e o Cárcere Criaram a Facção

Entenda como surgiu o Comando Vermelho no Presídio de Ilha Grande. Descubra a conexão histórica entre presos políticos e comuns que deu origem à facção.

5/26/20262 min read

O Caldeirão de Ilha Grande: O Berço da Organização

Para compreender a verdadeira história de como surgiu o Comando Vermelho (CV), é fundamental retornar ao final da década de 1970, em pleno regime militar no Brasil. O cenário central dessa origem foi o Instituto Penal Cândido Mendes, localizado na isolada Ilha Grande, no estado do Rio de Janeiro. Conhecido pelas condições desumanas, o presídio tornou-se o laboratório involuntário de uma das maiores transformações do submundo do crime nacional.

Por determinação do governo da época, o presídio de Ilha Grande passou a abrigar dois perfis de detentos completamente distintos na mesma galeria: os presos políticos — intelectuais, militantes de esquerda e guerrilheiros que combatiam a ditadura — e os presos comuns, detidos por assaltos, furtos e homicídios. Esse convívio forçado pavimentou o caminho para a troca de experiências que mudaria a segurança pública do país.

A Influência da Ideologia Guerrilheira no Crime Comum

O contato diário com os presos políticos introduziu uma nova mentalidade entre os criminosos comuns. Os guerrilheiros de esquerda possuíam técnicas refinadas de organização interna, conceitos estritos de disciplina e uma forte noção de coletividade e resistência contra a opressão do Estado.

Os presos comuns absorveram essa lógica de solidariedade para sobreviver à violência cotidiana das carceragens e combater os abusos cometidos pelos guardas e pelas próprias lideranças criminosas brutais da época. Sob forte influência desses conceitos de união coletiva, os detentos criaram a "Falange Vermelha", um grupo focado inicialmente na autodefesa, na divisão igualitária de mantimentos e na proteção mútua dos prisioneiros contra a opressão do sistema carcerário.

O Lema "Paz, Justiça e Liberdade" e a Evolução para o Rio de Janeiro

Com o início do processo de redemocratização do Brasil e a subsequente Lei da Anistia em 1979, os presos políticos começaram a deixar os presídios. No entanto, a semente da organização já havia germinado entre os criminosos comuns. A Falange Vermelha estruturou-se de forma definitiva fora de Ilha Grande e passou a adotar o nome oficial de Comando Vermelho (CV), guiado pelo lema "Paz, Justiça e Liberdade".

Ao saírem do isolamento da ilha e retornarem para a capital fluminense, os fundadores do Comando Vermelho — entre eles figuras notórias como Rogério Lemgruber — aplicaram os métodos de guerrilha urbana aprendidos na prisão para realizar assaltos a bancos em larga escala. O objetivo inicial era puramente financiar a fuga de outros "irmãos" que permaneciam encarcerados e sustentar a estrutura da facção.

A Tomada dos Morros e o Domínio do Narcotráfico

Na década de 1980, a estratégia da organização passou por uma mudança drástica. O Comando Vermelho percebeu que o mercado emergente da cocaína vinda da América do Sul era infinitamente mais lucrativo e menos arriscado do que os assaltos a bancos. A facção migrou suas operações para as favelas e morros do Rio de Janeiro, estabelecendo bases territoriais fortificadas.

Para garantir o controle dessas áreas e a lealdade das populações locais, o grupo replicou a lógica de assistência social desenvolvida no cárcere. O Comando Vermelho passou a financiar remédios, gás de cozinha e festas comunitárias, ocupando a óbvia ausência do Estado nas periferias. Esse assistencialismo garantiu uma base de apoio popular sólida, transformando a antiga falange de presídio em um império do narcotráfico que redefiniu a dinâmica social e a segurança do Rio de Janeiro por décadas.

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